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Prosa da menina, moça

1 jun

Capa "cortada": o resto da frase fica pra dentro do projeto, que é bem vertical e mantém duas superorelhas/ Reprodução

bili belisa bilíada achava que a vida não estava legal por isso saiu por aí atirando um limão nas coisas que voltavam pra ela como se fossem bumerangues que saco a vida menina de 13 anos não via graça no ônibus que passava quase vazio na rua na tarde de outono na bicicleta do quadro uma mulher o filho no colo que tinha um dois três quatro soldados do outro lado um menino de skate sem ponto pausa vírgula texto nonsense esse tal de décio pignatari poeta de 82 anos curitiba cidade escolhida pra viver e escrever pouco um livro incrível e o projeto gráfico maravilhoso que ano passado lançou o que escrevia desde os anos 60 esse homem do concreto amigo e contemporâneo de augusto de campos haroldo fez prosa e não poesia conto de fadas um rito de passagem da menina que vira moça e vê o mundo assim não muito legal até que no final se cansa das coisas que a seguem e vira e diz leva eu.

Clique para ler / Reprodução

Respira fundo. O livro Bili com Limão Verde na Mão (Cosac) é uma leitura deliciosa que começa assim, esticada e perfeita, vez que as palavras escolhidas pelo poeta se encaixam (muito mais que as minhas) no tempo certo ainda que não haja qualquer sinal de pontuação. Assim são as duas primeiras páginas pretas em que Bili explica, um pouco cansada da vida, o que passa.
E o livro segue com grafismo, geometria e páginas dobradas, do começo ao fim. O texto nonsense remete a uma loucurinha, uma viagem que invade o mundo do faz de conta, o que não existe de fato para Bili, mas ela vê, sente.
Um livro infantil de poesia para adulto? Talvez. Uma linguagem experimental com projeto visual ousado? Certamente. Para crianças que viajam com Alice e sonham com o pó mágico de Lobato? Sim, para todos que adoram o mundo encantado da escritura, opa!

A partir de: 8 anos

Shaun e Selma, um amor pra sonhar

10 mai

A gente passa uma infância toda contando carneirinhos para virar adulto e esquecer que eles existem. Pois a história de hoje começou assim…
Tic-tac faz o relógio em passos lentos e leves. Leves? Não! Queria eu que os saltos dos ponteiros fossem alados no sentido puro de quem voa. O tempo aqui na minha cabeceira pesa. Pois hoje, como há muito não se via, meus olhos não querem fechar.
Estou na companhia da Clarice e do Beto. Mas meus pensamentos vagam como criança que pede pra dormir na sala. “Mais um pouco, repete minha consciência. Ainda não tá na hora, ela insiste”.
Lembro de alguns exercícios de meditação pá-pum pra essa teimosia. Posso tentar imaginar tudo em branco e virar minhas ideias como folhas sulfites zeradas, uma a uma, espécie de stop motion da memória. Ou então, manter os olhos fechados sem tirá-los da ponta do meu nariz. Tem ainda a tentativa de acender uma vela e não piscar nunca mais.
Entre essas alternativas, antes mesmo de eu não escolher uma delas, Beto vira e diz: “Imagina o Schnaps (seu cachorrinho salsicha do coração) pulando a cerca. Um monte dele, um atrás do outro”.
Então vem Schnaps. Um pula a cerca, o outro atravessa a porteira, o terceiro namora com uma cadelinha. Não há ordem na minha cabeça. Aqui dentro, sem sono, tudo anda desgovernado.

Virei a página.

De repente, meus olhos atentos brilham e vão parar onde tudo começou: Shaun, the Sheep – o carneirinho. Eu simplesmente amo o desenho e acho cada narrativa a coisa mais gostosa deste mundo. Não é do tipo que me dá sono, longe disso. Mas tem algo em Shaun que me conforta e me leva para a cama. Talvez porque já assisti a muitos desenhos e ouvi muitas histórias na cama. Ou porque o tema carneirinho remete facilmente a algo macio como o meu edredon. Tem ainda o campo, os assobios, o amanhecer, a vida no campo, a perfeita imperfeição das massinhas, a amizade, o inesperado e uma partida de futebol em que a bola é um grande repolho que caiu da caminhonete pro pasto. Se isso não é um sonho, então eu saio do jogo.
Agora são exatamente duas da manhã e estou aqui contando carneirinhos ao meu novo modo, ou seja, escrevendo sobre eles. Voltar a ser criança não é fantástico?
Dê só uma olhada no episódio abaixo. Se gostar do jeito que eu gosto, leve-o para a cama. E se gostar muito, do jeito que eu adoro, leve ele e a Selma para a cama. O quê? Você não conhece a Selma?

Meu sono está batendo, mas não vou deixar essa folha sem antes dizer que a Selma é uma ovelhinha que muito poderia ser a namorada do Shaun. Aqui, na minha cabeça, ela é. Ela também é famosa e conta histórias nas palavras da Jutta Bauer, uma artista plástica alemã que dedica sua vida aos livros infantis – e que inclusive foi a homenageada da vez na última Feira de Bolonha.
O livro, coisa linda, é vermelhinho e cabe no bolso. E Selma é uma bolinha que vive repetindo para o mundo todo o que é a felicidade. Ela aproveita a vida e o tempo como deve ser: tranquilamente. E só vê beleza naquilo que é comum.

Reprodução

No site da Cosac, há uma pequena animação e uma descrição perfeita para o par que eu arranjei para o Shaun. “O dia a dia de Selma é aparentemente comum: ensinar as crianças a falar, praticar um pouco de esporte, conversar com a vizinha, comer grama, dormir profundamente. A diferença está na satisfação com que ela realiza essas atividades. Selma aprecia a vida em sua essência e, por isso, vê beleza naquilo que é comum. E nem se tivesse mais tempo ou se ganhasse na loteria alteraria seus hábitos. Ela comeria mais grama, conversaria mais com as crianças, dormiria mais e continuaria praticando – pouco – esporte”.

Boa noite!

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