Uma editora de mentirinha com verdades de verdade
(Por João Paulo Charleaux)
Trabalhei uns sete anos na Cruz Vermelha Internacional. Todos os dias, os assuntos eram: guerras e desastres. No meio disso, nasceu meu filho. Ficou cada vez mais difícil falar de famílias separadas pela guerra, crianças soldado, crianças mutiladas, desaparecidas, violadas. A organização me convidou para viver de três a seis meses num país em guerra, sem a família. Aceitei. Depois, recuei. Não quis ir. Olhava meu filho e via que não podia partir. Deixei esse trabalho e me mudei de Brasília para São Paulo. Comecei a trabalhar num jornal. Em um ano, cobri o pós-terremoto no Chile, que deixou mais de 500 mortos, e o do Haiti, que matou mais de 200 mil pessoas. Vi um bocado de desgraça, coisas realmente horríveis. As crianças são sempre as mais castigadas.
No fim do ano passado, deixei São Paulo e vim viver no alto de uma montanha no sul do Chile. Um dia, abri o jornal e vi a história de uma escritora de livros infantis, María José Ferrada, e uma ilustradora, Francisca Yáñez, que haviam juntado 4 mil origamis para enviar para as crianças vítimas do terremoto no Japão. Não sei porque, comecei a chorar. Consegui o telefone da escritora, María, e liguei. Ela mesma atendeu. Disse que viajaria na manhã seguinte para a cidade onde eu estava. Desci um caminho de três quilômetros de terra com meu filho, Julio, e fomos esperar pela María num posto de gasolina. Ela esteve em casa durante uma tarde. Tomamos chá e fizemos origamis.
María estava inspirada por uma lenda japonesa segundo a qual quem faz mil origamis tem direito a um pedido. Ela fez um post sobre essa lenda no Facebook e foi inundada por 4 mil origamis enviados por crianças de todo o Chile. Isso virou um livro e os origamis serão despachados para escolas japonesas. Muitas das crianças chilenas que fizeram os origamis também foram vítimas do terremoto seguido de tsunami de 27 de fevereiro do ano passado. Algumas destas crianças nunca tinham falado sobre suas experiências, mas fizeram isso por meio das dobraduras. Desenharam crianças felizes escapando da tragédia com vida e mandaram pêsames aos amiguinhos japoneses.
María e Francisca têm a editora mais linda do mundo: se chama Libros del Snark. Elas fazem livros artesanais, em tiragens exclusivas de no máximo 60 exemplares. Sabem que é algo efêmero. Mas apostam na beleza do gesto manual, do pessoal. São livros para crianças. Eu não sei porque acho que devo passar essa informação adiante. Também não quero falar muito sobre María, Francisca e a editora delas. Acho que essa é uma experiência especial, que tocará quem tiver que ser tocado. É só visitar o site pra ter uma ideia da coisa.
De alguma forma, sinto que nenhuma entrevista que eu tenha feito com qualquer presidente, líder político, guerrilheiro, assim como nenhum artigo ou matéria de jornal, nenhuma palestra, aula ou discurso têm o poder do gesto da María e da Francisca.



Querida Thais,
Seu blog é lindo!
Bela estreia de seção!
beijo grande!
Vocês e suas delicadezas… Já tá na Itália? Vou dizer algo comum, mas é verdade: saudade, obrigada e venha sempre!
Beijos.
Histórias que enchem a alma. Preciosidades.Vida longa ao trabalho de vocês!